#50 – Relembrando um pouco as origens

25/07/2021 8 Por TR

A viagem começou e está indo muito bem, obrigado!

No momento estou em Arraial do Cabo, já estou aqui vai fazer 3 semanas e devo ficar por volta de 4 ou 5 talvez. O mais interessante desse tipo de viagem sem compromisso nem datas definidas é a maleabilidade (flexibilidade para os não tão técnicos) que conseguimos no “roteiro” e também a facilidade de mudar direções quando quisermos. Meu planejamento inicial (como se isso existisse rs) era ficar em Arraial umas 2 ou 3 semanas apenas e depois ir pra Búzios. Acontece que eu gostei muito de Arraial, estou num local calmo, seguro e considerado paradisíaco, então porque não ficar mais? Minha ideia de ir pra Búzios não faz mais tanto sentido porque com R$ 5,70 eu consigo chegar lá, na verdade já visitei e vi que lá é realmente o que muitos daqui de Arraial comentam, é um local muito mais caro e turístico, muitas pessoas nas ruas, praças e praias lotadas, muitos estrangeiros, pacote completo mesmo. Dado isso estou pensando em nem mesmo ir pra lá, vou ficar mais um tempo aqui até dar aquela enjuada de praia (tá demorando mas deve chegar) e depois devo partir pra um local não-praia.

Enfim, o tópico desse post não é este, esse comentário inicial saiu meio que espontâneo então deixa ele aí, o que eu vim falar é que fazia muito tempo em que eu não fazia trabalho braçal básico e relembrar isso aqui foi muito interessante, me relembrou de muita coisa que eu fazia no começo da vida adulta e isso restaurou o sentimento de humildade que tenho e vi que muitos não refletem da mesma forma por talvez nunca terem pego nesse tipo de trabalho. Coisas como trabalho de limpeza forte, lavar banheiro, varrer, passar pano, lavar-louça, lavar chapa, servi pessoas, prestar um serviço direto que as vezes não é tão valorizados pelas pessoas, inclusive por mim.

No começo da minha vida adulta eu fazia muito isso, trabalhava como garçom em festas mas também servia de faz-tudo e eram atividades que eu nunca tive desprezo por fazer, na verdade sentia até um leve prazer, são até terapêuticas de feitas de forma certa (ouvindo uma música ou podcast rs). Eu lavava muuuuuuita louça porque era o que mais tinha no final da festa, lavava minha chapa engordurada (eu também fazia espetinho rs), levantava muito peso pra encher caminhão, lavava chão, banheiro, produtos, fazia comprar, lavava carro, fazia o que pedisse porque eu estava lá pra ajudar no que fosse, e eu fazia com gosto, com um sorriso no rosto, as vezes mal humorado por ter dormido pouco ou estar com fome, mas nunca por menosprezar a atividade.

Fazendo meu voluntariado aqui em Arraial eu retornei a essas atividades e estava meio que feliz, por assim dizer, por fazer algo nostálgico desse nível sabe? Tem mais de 10 anos que eu não pego num esfregão direito, ou lavo umas 3 pias imensas de louças que não são minha, ou lavo um banheiro que estupidamente sujo de forma não usual, e fazendo essas atividades básicas eu lembrei de muita história e muitos sentimentos que tinha na época, a esmagadora maioria feliz, e quando não era de felicidade era de orgulho de lembrar que eu ia dormir 4h da manhã totalmente destruído de uma festa pra acordar as 7h e começar o preparo da outra festa que iria iniciar as 10h. Era realmente muito cansativo, igual está sendo agora, o dinheiro não era muita coisa, era justo, mas quando se trabalha 7 dias por semana nesse ritmo em 1 ou 2 meses a sensação que um adolescente de 19 anos tem é de riqueza infinita hahaha.

Enfim, porque isso tudo? Porque uma parte da minha estadia aqui em Arraial eu troquei por esse trabalho manual e foi bem interessante, essa atividade por si só já traria essa reflexão boa e me tiraria da minha zona de conforto que entrei depois que me acomodei, mas além disso, também pra comentar algo no mínimo interessante que aconteceu comigo aqui, que é o julgamento que uma pessoa pode fazer em cima de você apenas olhando um momento do seu estado atual e já tirar muitas conclusões em cima disso.

Não que eu não soubesse isso, claro que eu sei, eu mesmo faço pré julgamento das pessoas apenas com observações assim, mesmo sabendo que não devia, porém tento não fazer ou no mínimo manter pra mim. Um caso interessante aconteceu quando eu estava servindo cerveja pros clientes do bar e também limpando as mesas, uma pessoa (vou chamá-la de desprezo kkkk) que eu já tinha conversado tranquilamente antes estava conversando com outra sobre faculdade, que estava estudando pra fazer engenharia e talz e que também estava estudando pra concurso e por assim vai. Como eu tenho experiência em ambos os campos quis ajudar elas dando uns pitacos, afinal grande parte da minha vida foi estudo e disso eu entendo (não foi uma intromissão porque eu já estava no papo que era de outro assunto) e acabei falando o que eu achava.

As minhas dicas foram simples e certeiras, daquelas que eu gostaria muito de ter tido no meu começo, mas elas não deram muita bola, na verdade fizeram até cara de “do que que você está falando? vaza daqui garçomzinho“, eu percebi isso e deixei pra lá. Passou-se um tempo e o evento já tinha terminado assim como o trabalho, já tinha passado da minha hora acordada pra ajudar, mas eu fiquei lá pra ajudar com detalhes pós-festa e também ficar em outra roda de conversa falando sobre programação (olha os papos que eu arrumo kkkkk, mas eu gosto) com outra pessoa que acabei conhecendo e as duas da conversa anterior se aproximaram.

Desprezo: “Do que vocês estão falando?

Pessoa legal: “O TR está me dado dicas de programação e de como entrar melhor nesse mercado

Desprezo: “Nossa, e você entende disso?

A pessoa legal empolgada passa na minha frente e fala: “Sim, ele já trabalho como programador e tem diversos amigos do ramo pelo mundo, ele conhece gente do Facebook, Google, Microsoft e muitas outras empresas, achei o máximo

Desprezo: “Nossa, e porque você não tenta uma vaga com eles?

TR: “Porque eu não quero” (respondi um pouco na grosseria e na obviedade porque a pergunta foi muito com sentimento de “porque você é garçom ainda?”)

Ela ficou um pouco surpresa e sem saber oq falar, daí a outra perguntou:

Desprezo 2: “E como você conhece tantas pessoas assim?

TR: “Eram tudo da mesma turma que eu na faculdade”

Bem, não vou me alongar muito aqui nas falas, vocês devem conseguir imaginar onde vamos chegar, mas basicamente as duas ficaram extremamente surpresas (de forma muito notória mesmo) de saber que eu era formado, não bastando isso ainda perguntaram qual era a minha faculdade, o que eu não gosto muito de dizer pois isso “me eleva” (status social) pra algumas pessoas sem necessidade alguma, e o que foi de fato o que aconteceu, quando disse qual era a bendita cuja o clima mudou totalmente, sai de empregado de limpeza invisível pra referência máxima delas, com direito até a elogio, pois uma delas queria fazer concurso pra Aeronáutica, justamente o lugar que eu tinha acabado de pedir exoneração, que coisa não?

A partir daí foi só adoração e “nossa me fala disso, me fala daquilo“, o que eu não deixei se alongar muito porque eu vi que era puro interesse, uma delas até começou a se jogar em cima de mim dando um mole descarado (vê se pode?!).

Enfim, cada um tira sua conclusão daí, eu já tirei as minhas. Inclusive o próprio anfitrião do hostel quando foi bater um papo comigo sobre a vaga ficou surpreso: “mas um engenheiro vai fazer trabalho doméstico, é isso que você quer mesmo? Tem certeza que quer limpar vaso vomitado?“, eita rotulação social que prende a gente. O legal de viajar sozinho é que a cada lugar novo que você chegar você está zerado, é um zé ninguém sem rotulação ou passado, daí conseguimos pegar essas nuâncias que em circulo de conhecidos não acontece.

Bem, independente do que aconteceu ou deixou de acontecer a experiência foi muito válida pra mim, me fez lembrar e de valorizar aquele meu trabalho braçal lááá no início que há tanto tempo não refrescava a minha mente. Não sei se já comentei aqui, mas até hoje um dos trabalhos que mais me deu prazer de realizar foi os daquele tempo, independente do serviço ou do pagamento, o clima do trabalho e das pessoas em volta era muito bom e eu gostava muito daquilo.

O trabalho braçal no hostel se foi, troquei de disco, talvez repita o voluntariado em outro daqui um tempo, mas a experiência boa de ter essas lembranças reativadas e as pessoas novas que conheci ficam, assim como as experiências ruins também, isso tudo é sem dúvida uma consequência direta de eu ter saído da minha zona de conforto pra enfrentar essas aleatoriedades inexplicáveis pelo mundo afora.

TR