#25 – Sou escravo do dinheiro? Um pouco da minha história com o dinheiro

28/11/2020 30 Por Papo TR

Eu nunca fui pobre pobre mesmo, mas sim de uma família humilde. Sempre tinha comida na mesa, mas não tinha o que eu queria. De vez em quando algumas regalias, carnes melhores, sucos de fruta em vez de saquinho, não era uma vida pra se reclamar, mas eu reclamava.  

Porque?! Porque é inevitável você se comparar aos seus amigos.  

Porque eles podem ter aquele brinquedo e eu não? Porque eles conseguem comprar lanche na escola e eu só fico de pidão? Porque quando eu vou na Lan House não jogo, só fico olhando e mendigando “5 min” dos meus amigos?   

“Porque não temos dinheiro”, minha mãe respondia, “quando tiverem dando dinheiro na esquina eu pego!”.   Essa resposta não me conformava de jeito nenhum. Ela me dava dinheiro pra levar no domingo 8h da manhã pra depositar numa caixinha pro padre, porque pra ele tem dinheiro e pra mim não? Foda-se o padre, fico com o dinheiro pra mim. No começo eu ficava só com metade, mas só metade não comprava o pedaço de bolo na saída da igreja, passei a ficar com tudo.  

Da minha casa pra escola eu tinha que pegar um ônibus, mas pagava meia por ser estudante. Mas se eu não precisasse pegar o ônibus, com quem ficava o dinheiro? Passei a voltar andando pra casa, demorava, suava muito, chegava com as pernas doendo, mas era o suficiente pra economizar 30, 40 centavos da época, que se juntasse dois ou três dias já conseguia jogar 1 hora de CS na lan house.  

E a vida foi seguindo assim, eu tentava arranjar dinheiro da forma que fosse, mas nunca era suficiente. Meus amigos sempre tinham mais coisas, podiam comprar picolés, tinham jogos, bonecos maneiros, só aqueles centavos que eu economizava da passagem ou o único real que eu roubava do dízimo não me satisfazia.   

Então comecei a roubar dos meus pais, primeiro furtando o cofrinho do meu pai. Ele tinha um pote de moedas que colocava o troco do ônibus, era só não limpa tudo que ele não ia perceber. Depois disso comecei a roubar da bolsa da minha mãe, no começo só moedas, mas depois me aventurei nas notas de 1 real até as de 5.   

Me orgulho disso? Acho que não, mas mostra bem meu complexo de inferioridade que tinha com meus amigos e minha tentativa de fugir disso. Mostra também da onde veio minha busca insaciável por dinheiro desde a infância, quando se começa a ser ambicioso desde cedo assim, fica claro que lá na frente algo psicológico vai ser afetado.  

Até que chegou o ensino médio e eu comecei a fazer minha própria grana com meu império de chocolate, começou a cair muito dinheiro e eu não estava acostumado com isso. Podia lanchar de manhã e de tarde na escola sem problemas, podia para de comer no bandejão e ir em locais mais fartos, podia comprar o que eu quisesse. Mas acontece que não sai comprando que nem um desesperado, eu simplesmente matei minhas vontades momentâneas e guardei o dinheiro, e fui guardando.  

Comecei a trabalhar mais pesado, oferecendo minha mão de obra pra carregar coisa e dando sorrisos sinceros como garçom, toda sexta, sábado e domingo eu estava na luta. Comecei a estagiar também, e logo depois a ganhar mais ainda como técnico, eu trabalhava os 7 dias da semana, levantava cedo e ia dormir muito tarde. Isso tudo deu resultado, não saia com amigos, não me divertia, mas com 18 anos a minha visão era que estava “chovendo” dinheiro, paguei minha auto-escola e comprei um PC decente, mas meus gastos grandes não fugiam disso, apesar de correr atrás de dinheiro eu nunca fui consumista, não me importava com roupa ou tênis de marca, nem com status social ou algo do tipo. Lógico, tive todo desejo de um jovem brasileiro de ter um carro, mas sabia que isso estava longe da minha capacidade, então eu guardava mais ainda a grana que sobrava.  

Nessa época comecei a pesquisar sobre investimentos, mas não por muito tempo pois do nada decidi que ia pra Fortaleza-CE estudar pra um concurso muito difícil, estava trocando meu trabalho de técnico que ganhava muito bem mais a minha vaga na faculdade de engenharia elétrica por um outro sonho, e pra esse sonho eu precisava de dinheiro.  

Gastei todas as minhas economias nesses 2 anos estudando em fortaleza, mas valeu a pena. Passei no vestibular e fui viver o tal do sonho. No começo toda aquele dificuldade de jovem sem dinheiro voltou, mas pelo menos viver nesse novo habitat era super econômico, gastava pouco, coisa de R$ 300 por mês, eu não saia, não ia em pizzaria nem em festas, ficava restrito ao meu quartinho jogando no PC e conversando com amigos. Dava algumas aulas e fazia alguns bicos, aos poucos fui restabelecendo meu patrimônio, fiz estágio nas férias do meio do ano, depois fiz mais um estágio de 3 meses nas férias do segundo ano, depois mais outro estágio e assim foi indo, até meu terceiro ano de faculdade eu basicamente nunca tinha tirado férias mesmo, todo período sem aula eu estava no campo de batalha no time do dinheiro. Até que, Boom!!! Estourei!! Consegui um emprego que me pagava R$ 6000/mês! Six fucking thousand por mês maluco!! O que eu vou fazer com tanta grana?   

Sim, tive os meus momentos de consumidor, mas logo percebi que eram coisas pequenas. Gastei com aquelas pizzas que ficaram na vontade, gastei com besteiras pequenas, quase todas comida, gastei na troca do meu celular, na compra do meu novo notebook, mas ainda sim sobrava, e ainda bem que sobrava rsrs. Sai de uma vida que gastava R$ 500 por mês pra gastar R$ 1500, mas mesmo assim sobrava R$ 4500. É hora de investir!  

Acho que desse ponto até aqui alguns de vocês já sabem o resto da história, até explica um pouco o meu grande interesse por investimentos. Mas onde eu quero chegar com toda essa reflexão sobre a minha vida?   Refletindo comigo mesmo e agora com vocês, eu percebo que eu nunca fui consumista, nunca fui um capitalista louco atrás de mais pertences, não sou acumulador e essa pandemia foi excelente pra mim reconhecer isso de mim. Eu fico brincando comigo mesmo que se eu ganhasse na mega-sena hoje, acho que daria uns milhões pros meus familiares se ajustarem na vida e guardaria o resto, ou melhor, investiria o resto. Talvez comprasse uma casa ou um carro?! Talvez, mas sem dúvida nenhuma uns 80% eu iria guarda.  

Não sou consumista, na verdade sou muito simples, tenho a famosa simplicidade voluntária, ou em termos modernos, sou minimalista. Não junto dinheiro pra comprar algo específico ou vultuoso, junto porque sobra e porque assim me disciplinei a fazer. Refletindo nessa pandemia eu acabei invertendo os papeis, eu achava que era escravo do dinheiro, que era um perseguidor nato, porque quase tudo que eu fazia tinha dinheiro envolvido e porque quanto mais melhor. Mas eu estava enganado, não sou escravo dele, e sim tenho ele a meus mandos, a minhas ordens, e é justamente isso que vou fazer.  

Não faz mais sentido pra mim ficar trabalhando num emprego em que eu não tenho prazer em exercer apenas por dinheiro, não faz mais sentido pra mim ficar numa posição social só pra acumular mais e mais. Acumular é bom, mas temos que fugir da síndrome do tio patinhas que nós investidores temos: “vou juntar só mais um pouquinho”. Eu já tenho dinheiro suficiente pra sobreviver uns 5 a 6 nos sem trabalhar, com perspectiva de prolongar pra 10 anos se os investimentos renderem, então porque continuar numa vida que não faz mais sentido pra mim?  

Desde que eu tenho dinheiro sobrando eu só gastei muito apenas 3x na minha vida (os empréstimos pros meus pais não conta). Um foi meu notebook, que é gamer e dos bons, gastei R$ 5200, valeu a pena? Sim, mas o prazer de possuir ele já passou a muito tempo. Os outros dois foram R$ 5500 numa viagem pro Chile (Santiago, Farellones e Atacama) de 2 semanas, PQP! Que viagem, inesquecível! fiz no quarto ano da faculdade, o mosquito viajante me picou aí. E o maior gasto que já tive foram R$ 8900, um mochilão de 25 dias na Europa (Londres, Paris, Bruxelas, Amsterdã, Hamburgo, Berlim, Munique), outra viagem inesquecível que fiz no quinto ano da faculdade. Fico pensando, se eu tivesse todo dinheiro do mundo, o que eu faria? Ou melhor, se dinheiro não fosse problema, o que eu faria?  

Refleti, pensei comigo mesmo e me decidi. Vou “larga tudo” pra experimentar vivências novas, viajar e conhecer novas culturas, pessoas, lugares e por assim vai. Vou “larga tudo” pra procurar o que eu gosto e conviver mais com minha família (são mais de 10 anos longe), meus amigos mais próximos e de todas as pessoas que me importo. Isso vale muito mais, mas muito mais mesmo, do que acumular mais dinheiro e ter tantos reais de renda passiva daqui 20 anos, não vou doar 20 anos da minha vida só pra ter esse conforto, essa segurança. Mas também não sou ingênuo ou irresponsável, ora essa, eu não tenho compromissos nem ninguém que dependa de mim, sou eu por minha conta, sou independentes, sou jovem e tenho plena saúde, tenho os privilégios que a vida me deu pra fazer isso e, principalmente, não sou escravo do dinheiro, não mais, então porque não fazer?!    

Pois é, minha data de demissão já está marcada, só me resta esperar e aproveitar o caminho, o processo, porque como um frase reflexiva que li num livro que não lembro mais qual é: “Não espere se aposentar para ser feliz. Viva no presente”.  

TR