#18 – Tese do Urânio – Porque o preço está baixo?

#18 – Tese do Urânio – Porque o preço está baixo?

24/09/2020 5 Por Papo TR
Olá meus amigos, vou continuar escrevendo um pouco mais sobre a tese do urânio, como vou fazer mais alguns aportes eu fiquei com vontade de destrinchar mais sobre essa tese e reforçar ideais que tenho e ir atrás de visões que não tenho, entre outras coisas e creio que escrever sobre ela atraia mais insights e discussões sobre o tema. 

Pra quem não viu o primeiro post é só clicar aqui.

Esse é o primeiro de uns 3 ou 4 post sobre os principais temas da tese de investimento em urânio, nesse post vou falar o porque o preço está consideravelmente baixo, nos próximos vou falar porque ele deve/tem que subir, no outro vou dizer porque é uma oportunidade tão única, assimétrica e tentar descrever os riscos e no último (talvez) vou falar como investir e as dar noções de algumas empresas do setor.
Vamos ao foco então desde post: Porque o preço do urânio está tão baixo?
Primeiro, pra falarmos que algo está baixo esse “baixo” tem que ser relativo a alguma coisa, pode ser aos preços antepassados, já que atualmente o preço está por volta de USD 30 e já teve acima de USD 100, ou pode ser em relação aos próprios mineradores de urânio, que trabalham ABAIXO da linha de lucro da mineração, o lift cost, isto é, o preço que a mineradora gasta pra ir lá na mina, achar o urânio, extrair ele, mitigar os riscos, transportar, e tudo mais, o preço disso tudo. As mineradoras que tem o menor lift cost tem ele por volta de USD 40. Então sim, o preço atual do mercado está baixo, porque as mineradoras estão PAGANDO pra extrair, estão tendo prejuízo, e é um dos principais motivos que podemos dizer que o preço está baixo sim.
Ok, tirando relatividade de preço de lado, porque chegou a esse patamar? Como chegou?
Pra isso precisamos nos concentrar nos fatos históricos e também entender que a dinâmica de preço de uma commodity é simplesmente oferta e demanda. Se tem muito minério de ferro no mercado, a oferta é alta e o preço baixo, se tem pouco arroz, oferta baixa e preço alto, se todos os carros a combustão instantaneamente virarem carros elétricos, então a demanda do petróleo abaixa e o preço também. Num mercado cíclico tudo é oferta e demanda e não é diferente com o mercado de urânio.
Vamos lá, qual é a utilidade do urânio? Ele quando enriquecido pode produzir energia elétrica em usinas nucleares e quando mais enriquecido ainda pode produzir armamento nuclear. Então temos que analisar essas duas demandas por urânio pra entender a dinâmica do preço.
Fato nº 1 – muita mineradora, pouco consumidor
Não pretendo dar os dados todos certos aqui, até porque estou redigindo esse texto de cabeça, pra quem tiver mais interesse é só fazer sua própria busca, mas o primeiro fator pra falar porque o preço baixo é o fato de que tinha muita mineradora no mercado e pouco consumidor de urânio. Isso foi devido ao boom de 2006 (que não tem nada a ver com o mercado de ações comum e a queda em 2007) e isso trouxe muitas empresas pro ramo, mas o fato é, estamos em período de paz (logo, pouca demanda de armamento) e as usinas que foram construídas não consumiam todo o urânio produzido. Resultado: muita oferta, pouca demanda, preço pra baixo. Em 2010, 2011 mais ou menos tinha mais de 600 mineradoras no mercado, com o preço baixo e com a ineficiência e a falta de investimento de muitos empresários, muitas dessas empresas faliram, restando por volta de 40 empresas. Isso é o verdadeiro ciclo de mercado na veia, em que épocas de vacas gordas muitas empresas entram pra lucrar, o produto é o mesmo (por isso é commodity) e a diferença pra uma empresa boa e uma má é a eficiência na produção, com a baixa do preço devido a alta produção as empresas com menores fôlegos vão falindo e sobrando só aquelas muito resiliente.
Preço do Urânio desde o boom de 2006

Fato n° 2 – Programa Megatons to Megawatts 
Esse programa foi uma parceria entre a Russia e os EUA com o objetivo de realizar parte do desarmamento da Russia (arsenal atômico) e vender esse urânio enriquecido remanescente pros EUA, sendo um ótimo acordo pros dois lados, já que o material bélico é desativado, não caindo nas mãos de terroristas ou sendo usado, os EUA saem felizes, garantindo mais combustível para suas usinas (cerca de 20% da matriz energética dos EUA é nuclear) e desarmando sua “arqui-inimiga” e a Russia lucra com a venda do urânio. Mas quem não sai feliz com essa história? As mineradoras claro, já que “brotou” um novo vendedor de urânio no pedaço, fazendo ter ainda mais urânio no pedaço e fazendo pressão no preço pra continuar baixo ou cair ainda mais.
Fato nº 3 – Acidente “nuclear” de Fukushima
Por volta de 2011 creio eu houve o acidente nuclear da Usina de Fukushima, no Japão. Nuclear está entre aspas porque na verdade não foi uma acidente nuclear, e sim um terremoto/marremoto que atingiu o Japão e, claro, a estrutura da usina. A estrutura da barragem foi destruída (a Usina é construída perto do mar por causa do sistema de refrigeração do núcleo) e houve danos perto do núcleo do reator que fez com que a água que circulasse por lá fosse radioativa e afetasse o solo (ou as pessoas) que tiverem contato. Esse acidente ambiental teve muitas mortes e alto impacto negativo pra humanidade, porém, não houve vítimas diretas da Usina, ela foi devidamente isolada e posteriormente a água radioativa também. Não vou discutir a parte ambiental ou a possível ou não contaminação dos habitantes pela radiação, mas o fato é que por medo do pior ter acontecido o governo japonês acabou recebendo muita pressão midiática e de ambientalistas e acabou decidindo fechar a usina (hoje a história já é outra). A consequência disso vocês já devem imaginar, foi uma facada dupla no mercado de urânio, pois ao mesmo tempo que o mundo perdia um dos principais consumidores de urânio, também ganhou um potencial vendedor, já que a usina tinha anos de combustível estocado e foi a mercado vender esse resto e, de novo, pressão pra baixo nos preços.

Acidente na usina de Fukushima
Fato nº 4 – Contratos de urânio
Esse fato na verdade nem é um fato, é mais uma informação. É importante entender como o urânio é comprado pelas usinas pra entender porque teve um período tão grande de preços baixos. O urânio é comercializado em contratos, isto é, eu, uma usina produtora de energia tenho o objetivo de comprar urânio, como eu quero garantir um funcionamento longo da minha usina vou logo é comprar um estoque de 10, 15, 20 anos de combustível. Então eu vou nas mineradoras e faço contratos de compra da forma que aquela mineradora tem a obrigação de me atender por todo esse período e, como dá pra ver nesse situação, a negociação de fato foi feita apenas uma vez (ou próximo disso, mas vamos simplificar). Como são poucas usinas (os números estão aumentando muito mas ainda são relativamente poucas) então o número de negociações é baixo e só irei negociar de novo quando tiver acabando meu estoque ou meus contratos (há dois tipos de mercado, mas pra simplificar não vou falar sobre eles). Portanto, desde a última leva de contratos (no boom de 2006 mais ou menos) não houve grande volume de urânico nas negociações até então, são todas negociações relativamente pequenas (mercado spot) pra ajuste de produção de energia. Se não há grandes negociações no mercado há pouca demanda e, de novo (tadinho desse preço, só apanhou rsrs), preço pra baixo.
Desculpe se a explicação ficou muito técnica ou confusa, mas é porque essa não é uma tese pra iniciantes e nem intermediários da economia. Esses são alguns fatos e talvez os principais do porque o preço do urânio permaneceu baixo todo esse tempo, é importante estudar e entender todo o cenário pra o investidor ter noção do risco do investimento. Como eu disse lá no começo do post, tudo se resume a um único conceito econômico: oferta e demanda, mas sabe o porque a oferta está alta e o porque a demanda está baixa é importante e é por isso que trouxe esse tema primeiro. 
Mas se agora tem poucas mineradoras no mercado, se o programa de desarmamento nuclear já acabou, se as usinas no japão estão sendo reativas e no mundo inteiro outras centenas estão sendo construídas e, por fim, se essas usinas estão indo as compras fazer estoque o que acontece no preço? Mas ainda, se não tem produção suficiente pra atender a todos, o que acontece? É isso que vou tentar explicar no próximo post rsrs.
Bem, espero que não tenha ficado muito confuso, acabei escrevendo tudo de cabeça pois os arquivos da minha pesquisa não estão nesse computador, se tiver avisa aí nos comentários que me esforço mais no próximo. Comentem aí o que vocês acham, estou em busca de argumentos pra discussões mesmo.
Abraços e até mais.
TR