# 11 – Meu monopólio de chocolate

24/07/2020 21 Por Papo TR
Fala galera, blz?!

Então, eu estava pensativo na vida esses dias e lembrando da minha jornada e lembrei de um fato curioso dos meus primeiros trabalhos e queria compartilhar com vocês pois acho ela legal e talvez inspiradora.

Vamos lá, minha mãe sempre foi uma excelente cozinheira, de tudo mesmo, daquelas que prova a comida e já sabe o que tem ou como fazer, ou perto disso. Ela era uma daquelas donas que sempre tinha um caderninho cheio de receitas antigas de vô e tudo mais.

Quando eu era adolescente e tinha acabado de entrar no ensino médio, um dos natais em família ela fez um biscoito com recheio de chocolate pra ceia e, por incrível que pareça, sobrou! Não porque era ruim, mas porque era muito mesmo. Eu estudava no CEFET-MG, uma escola técnica e por ter tido algumas greves anteriores o calendário ainda não tinha se corrigido e teríamos aula já no começo de janeiro. Como sobrou biscoito e eu sempre fui muito solidário com amigos e tudo mais resolvi levar pra escola pra os mais chegados provares.

Acontece que eu dei o biscoito pra eles e eles amaram, não tinha mais elogio pra descrever o produto e pediram mais. Bem, eu não tinha, acabou, não tinha oque fazer se não pedir mais pra minha mãe. Passei a ideia pra ela e ela disse: “se eles pagarem o custo dos ingredientes eu faço”. Pois levei a proposta pra eles e aceitaram. Na primeira remessa fiz uns pedidos e cada um pedia entre 3 a 5, minha mãe fazia e todo mundo ficava feliz. Daí alguns desses amigos deram pra outras pessoas e elas vieram a minha procura pra comprar e ai a lâmpada da oportunidade brilhou! “Vou começar a vender!

Combinei com a minha mãe, ela não se importaria de fazer e “não lucrar com isso” e eu ficaria com o lucro, mas esse lucro iria pra pagar minhas passagens de ônibus pra escola e pro dinheiro do almoço, isto é, se sobra-se era meu. Coloquei o valor 2x o custo, no olhômetro mesmo, vi que não estava caro nem barato e achei decente, dava R$ 1,00 cada biscoito (ohhh época boa de 2008).

Peguei minhas economias iniciais, comprei ingredientes pra semana e mão na massa. Primeiro dia levei uma bacia de biscoito, tinha uns 30 mais ou menos. Vendeu tudo. Semana inteira nessa, vendeu tudo todos os dias.

Perfeito! Vamos aumentar a produção, segunda semana levava duas bacias, 60 biscoitos, vendeu tudo. Muita gente me procurando e pedindo pra começar a vender trufas também. Passei o pedido pra minha mãe, “trufa é mais caro” disse ela, ok, a gente ajusta o preço.

Comecei a levar trufas e biscoitos, somente a minha turma era suficiente pra dar cabo de tudo, mas algumas pessoas das outras turmas também conseguiam comprar.

Nesse ponto eu já estava levando 3 bacias por dia, 90 biscoitos, conseguia pagar meu ônibus, meu almoço, ostentar comprando lanche (coisa que nunca fazia) e ainda sobrava dinheiro. Mas o ‘boom’ inicial tinha passado, minha turma já estava “enjoada” de comer, o consumo tinha diminuído, as mães provavelmente estavam brigando com o alto consumo de chocolate dos meninos. Mas tudo bem, parei aí?! Não senhor!

Consegui implementar duas estratégias de venda que se fosse nos dias de hoje teria youtuber vendendo curso online pra lucrar com isso, mas foi apenas ideias ingênuas colocadas em prática.

A primeira foi a mais criativa. Pedi pra minha mãe fazer pacotinhos de mini trufas e mini biscoitos, como se fossem amostra grátis, saindo do meu bolso mesmo. Eu pegava essa amostra, ia na sala das outras turmas no recreio e colocava uma amostra em cada mesa com um bilhetinho falando a minha sala pra o pessoa ir comprar (essa época não tinha wpp e msn era luxo). Cada dia eu invadia uma sala, colocava as amostras e ia embora, esperava pra ver o que acontecia. O CEFET-MG era uma escola muito grande, tem mais de 10 cursos técnicos, 3 turma cada uma, foi uma puta explosão de pedidos, não conseguia atender todos, tinha que fazer lista de pedidos pra outro dia, vendia muuuuuuuuito, comecei a levar 5 bacias abarrotas de chocolate por dia, mais de 100 e eu sempre vendia todos.

Eu praticamente “parei” de estudar, minha mochila antes levada apenas 2 cadernos e um estojo, parei de levar caderno (não usava mesmo, sempre foi muito rebelde em relação a anotação) e minha mochila quase não cabia as bacias, as vezes levava uma na mão no ônibus.

A segunda ideia foi mais de um amigo do que minha. Nossa biblioteca era bem grande e central, era uma das melhores bibliotecas de BH, era bem central e tinha um funcionário que ficava na porta entregando as chaves dos armários e vendo se as pessoas deixavam as mochilas do lado de fora. Acontece que esse cara era meu amigo e cliente, sempre comprava e ficávamos conversando, acabei oferecendo uma proposta pra ele: “te dou 2 trufas por dia e você deixa a minha bacia em cima da mesa e vende as trufas pra quem quiser, você não precisa argumentar e nem convencer, só deixa aqui e quem quiser vc fala o preço e pega a grana, blz?!”, ele topou.

Pronto, tinha “criado” um excelente ponto de venda (antes era tudo comigo) e a biblioteca começou a vender muito também, muitas pessoas que não eram alunos compravam, pessoa da graduação e professores. Comecei a pagar esse meu amigo com dinheiro depois que começou a bombar muito e eu comecei a ter que levar mais de 200 chocolates por dia, era algo totalmente desafiador porque eu parecia um ambulante no ônibus, entrava com duas mochilas lotadas de bacias, umas 2 ou 3 em sacolas de supermercado e “bora aprender” na escola. 

Acabei ficando conhecido como o menino da trufa, fiz isso até meu ultimo dia de escola. Aprendi empiricamente que quando tem muita gente atrás do produto você pode aumentar o preço e continuar conseguindo vender, aumentava uns 50 centavos a cada 3 meses e as vendas não paravam, cogitei começar a pagar o meu pai pra levar as trufas pra escola porque a demanda era grande.

Com isso veio muita grana claro, pra um mlk de 16 anos era muita grana, antes eu chorava pra pagar um almoço de 2 reais no bandejão e comecei a ver que podia ir almoçar em restaurantes fora, de 10, 12 reais o prato feito. Fiz isso? No começo sim, comprava o que um adolescente queria, refrigerante, jogos, lanches e, e, e só! Sim, eu não era gastador, sempre fui frugal, desde o início. Comecei a ver o trabalho escravo da minha mãe e comecei a dividir os lucros com ela, estava sobrando mesmo, e lá em casa sempre faltava algo.

Mas ainda entrava dinheiro e comecei a comprar equipamentos de cozinha pra ela, batedeira profissional, formas, moldes, ferramentas. Mas porque aumentei tanto assim? Porque essa aventura de monopolizar (sim, eu basicamente fali a venda de doces da cantina e todos os guerreiros que tentavam vender paçoca e balas na escola) me abriu outras portas.

Veja onde fomos parar: um desses amigos que sempre comia meus chocolates levou pra casa dele e deu pra mãe dele. A mãe dele entrou em contato comigo querendo que eu vendesse em lotes pra ela, sim, ela era uma organizadora de festas e sempre fazia pedidos de doces e comidas pra colocar nas festas. Ela pediu um orçamento inicial e passei pra minha mãe e falei pra ela: “olha, acho que esse pedido vai ser grande, coloca um valor alto pra tirar um lucro bom pra senhora”. Passei o lucro achando que ia ser recusado, ela aceitou, pediu 500 no primeiro fim de semana, depois 700, depois 1000! Minha velha agora não tinha mais descanso, época de pedidos de festa a cozinha trabalhava freneticamente! Eu ajudava com formas e embalagem e ela fazia os pontos dos doces e a magia dela, até minha irmã entrou nisso.

Acabou aí, não! Comecei a realizar as entregas dos doces pra cliente e comecei a ver de dentro como era a organização de uma festa, curioso como eu sou fiquei enchendo ela de pergunta e ela me ofereceu um emprego com ela, garçom. Aceitei claro, eu era um adolescente sedento por dinheiro (nem sei porque, mas depois consegui dar um bom destino nele), comecei a trabalhar quase todo fim de semana, fazia 2, 3, 4 festas praticamente de sexta a domingo, comecei a me empenhar muito e ela viu isso.

Vejam só, basicamente um pequeno gesto despretensioso de levar chocolates pra um amigo me proporcionou uma baita experiência e caminhos. Acabei indo trabalhar em diversos bicos de garçom por causa disso e também acabei conseguindo trabalhar full time com eles quando me demiti do estágio. A minha mãe até hoje faz doces pra essa empresa, incentivei ela e a minha irmã a montar uma empresinha de venda de bolos e doces, mas não foi muito pra frente, infelizmente eu não morava mais me casa pra ajudar a impulsionar o negócio. 

Tenho orgulho dessa história e do jeito que ela se desmembrou, se duvidar até hoje sou conhecido como ‘menino das trufas’ pelos meus ex colegas de turma hahaha.

Achei bem nostálgico lembrar desses fatos, espero que gostem.

TR