#51 – Risco da Ruína

13/08/2021 6 Por TR

Um dos grandes desejos que vislumbrei com o planejamento desse mochilão era fazer mais atividades ao ar livre, sempre vibrei com esse tipo de atividade, mas também sempre fui um cara muito caseiro e por isso pratiquei pouco esse tipo de atividades, precisava de uma turma pra me acompanhar e quase nunca tinha, ou as tarefas diárias não deixavam e assim segui.

Uma das atividades outdoor que mais gosto de fazer são trilhas, fazer trilha por fazer, por caminhar e ir refletindo da vida, fazer porque o caminho é legal, ver e ter contato com a natureza, chegar naquela cachoeira legal, ou naquele destino com um visual de arrepiar, é muito revigorante isso, gosto de experimentar o inexplorável (por mim claro), aquela pequena adrenalina do que vai ter na próxima esquina, ou de simplesmente completar um trajeto difícil, é simplesmente realizador.

Por causa disso na minha estadia em Arraial do Cabo eu fiz todas as trilhas possíveis, todas com visuais de arrepiar, na trilha do pico do Atalaia eu cheguei num visual tão energizante e delicioso que sentei na grama e fiquei lá uns 40 minutos parado, observado o cenário, sentido o vento no rosto, a brisa misturada com água, via as nuvens, as gaivotas rodando, meditava, pensava, dormia, só de pensar eu me arrepio de tão bom que foi esse momento. Em outra trilha de Arraial eu também parei numa beira em frente pro mar e fiquei lá por 1 ou 2 horas, fazendo as mesmas coisa que falei e de quebra ainda liguei pra minha família de tão bom humor que eu estava.

Uma das fotos que bati em uma das trilhas de Arraial

Agora aqui em Búzios, meu amigooo, no primeiro sábado já olhei qual trilha que ia fazer e fui em busca da aventura. Pra quem gosta de olhar mapa essa trilha começava pela Praia do Canto, depois Praia dos Amores, passa pela Praia Virgem e termina na Praia da Tartaruga, é um combo de 4 praias mais uma vista surreal do mar de búzios, excelente trilha! Alias, pego essas ideias pelo App Wikiloc, que mostra várias trilhas em cada local. O maldito do cara que avaliou essa trilha colocou nível “moderado”, moderado! FDP! Ok, moderado então!

Caminho em vermelho que percorremos

Lá vou eu e um parceiro pra trilha, tudo muito show, começou muito bom, paramos pra um mergulho na praia dos amores e depois decidimos continuar. O problema é que a partir dali a trilha parecia muito mais complicada, indo por meio das pedras de uma forma um pouco íngreme, tão íngreme que de longe a gente nem imaginava que dava pra passar, de forma que se caísse íamos direto pras pedras e pro mar, uma coisa não muito boa, pois de uma altura de 1 metro já era suficiente pra ralar muito e sair sangrando feito porque eram pedras escorregadias (molhadas), com corais e pontiagudas.

Mas ok, chegamos mais perto e vimos que dava pra ir, dois caras na flor da idade, com condicionamento legal passavam sim, então vamos continuar. Caminho foi indo, visual legal, fotos sendo batidas, até que uns 10 min depois vimos o que realmente nos esperado, era uma mistura de trilha com escalada, tínhamos que subir a uma altura que no começo não parecia alta, mas depois olhando lá de cima vi que era alto pra o caraiii, mais de 10 metros, e o que tinha lá em baixo? mais pedras afiadas e ouriços, uma queda dali era uma fratura exposta no mínimo, uma cabeçada bem dada era morte certa!

Não preciso nem dizer que subi com a coragem cheia mas que murchou quando cheguei no ponto mais alto. A questão não era só a altura, e sim a forma de passar, a passagem era muito estreita e qualquer escorregão já era! Nesse momento a perna já começou a fraquejar, já dei uma leve escorregada e me vi caindo de uma forma tão tosca que me arrepiei todo, o filme da minha vida passou pelos meus olhos e eu me peguei perguntado: “cara, o que que eu estou fazendo aqui? O que que eu tenho na cabeça? Se eu cair daqui já era, porque estou aqui? vou voltar! Não!! voltar não dá, não dá de jeito nenhum, é íngreme demais, não consigo avança, não consigo voltar, TRAVEI!”

Meus queridos, travei de um jeito que fiquei uns 2 minutos totalmente parado pensando e me criticando do porque eu estar ali, porque eu sai do conforto da minha casa pra me fuder no meio de um litoral? Que ideia idiota é essa de ir fazer trilhas, porque? “Se eu quero ver a praia do outro lado porque eu não simplesmente vou pra ela por um caminho seguro? É tão simples, é a mesma praia, o mesmo visual!

Respirei fundo, tentei me concentrar no problema que estava metido, a perna não mexia mas a minha mente estava funcionando e me metralhando de negatividade, meu coração acelerado de uma forma que parecia que eu tinha corrido uma maratona, noooosssa já fazia tempo que eu não sentia esse sentimento na minha vida, era adrenalina, adrenalina da forma mais pura, aquela que grita pra você ficar alerta e salvar sua vida, que sentimento bom!

Com a mente funcionando eu pensei, mão firme, pé firme! Mão firme, pé firme! Segue nessa que dá pra passar, mão firme você consegue algum apoio pra caso escorregue, pé firme pra dar sustentabilidade pra que o outro pé saia do chão e mais um passo seja percorrido.

Mão firme, pé firme, mão firme, pé firme!

Seguindo nessa, uns 10 passos em diante o caminho deixa de ser tão estreito e fica largo, mas largo de um jeito que eu podia saltar de alegria e me sentir no lugar mais seguro daquela trilha. Adrenalina a mil, coração na boca, eletricidade percorrendo o corpo de uma forma que não tem como eu me enganar, estou vivo! Definitivamente estou vivo e sinto cada parte do meu corpo saltitando e comemorando mais um conquista, mas não era uma conquista qualquer como as outras corriqueiras, era uma conquista diferente, mais saborosa e interessante, era algo tão maneiro que parecia que eu estava chapado, sei que era efeito do medo mais a adrenalina, mas era mágico.

A trilha continuou, com outros desafios pela frente, escalamos mais pedras, passamos por debaixo de outras, achamos a maldita Praia Virgem, curtimos a paisagem e nesse momento eu percebi sim, claro que o destino final, praia da tartaruga, pode ser acessada de forma normal e segura, porém, pelo caminho mais difícil (a trilha) o valor que damos pro trajeto e pelas coisas que encontramos no meio do caminho é diferente, é mais interessante, é mais real e vivo, o destino final é o mesmo, mas a forma que eu cheguei na praia da tartaruga era totalmente outra se eu fosse de carro. Fazer trilha é algo que gosto muito porque ela te mantém no momento presente, te faz prestar atenção no caminho, naquele bixo que passou perto, nos som do local, na beleza que vão se revelando, é uma terapia sem igual.

Chegado lá demos a volta na praia inteira e sentamos numas cadeiras com guarda-sol, não sei avaliar o quão feliz eu estava naquele momento, pode ter sido a trilha recém finalizada ou a fome/sede do momento, mas parece que se refletiu na caipirinha e nos petiscos que eu comi pois estavam surreais!!

Enfim, meu dia terminou muito bem, sentimento de realização, mas na cama pensando, quanto vale esse risco? Será que é racional fazer esse tipo de aventura? O que temos a ganhar não é pouco frente ao que temos a perde? A famosa assimetria que Taleb implantou em mim faz com que eu fique pensando nessas loucuras. É uma reflexão meio injusta porque não conseguimos sentir a recompensa de completar a trilha antes de completar ela própria, então não tem como avaliarmos isso previamente. Todavia, pra mim, naquele dia, completar ela valeu o risco, valeu demais!!

TÔ VIVO!

Especialmente sabendo que eu sai vivo! rs

TR